Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Pálpebras

Ônibus param nos pontos
Parem dezenas de passageiros.
Insetos de passagem.
Todos passam, tudo passa...
Eu só observo.
E só peço a Deus pálpebras mais grossas,
Porque mesmo de olhos fechados.
Só vejo você na minha frente.

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira, o filme

“Fernando, parabéns pela coragem de tentar adaptar o livro de Saramago.” Esta seria a frase mais otimista que teria para dizer ao grande diretor Fernando Meirelles se o conhecesse. Porque é preciso muita coragem para tentar traduzir em recursos áudio visuais a literatura de José Saramago. O risco de ficar na tentativa é imenso. Metáforas, aliterações, metonímias em linguagem escrita podem ser substituídas pelas cores, enquadramentos de câmeras e trilha sonora do cinema? Até hoje eu estava certo que sim. Mas o que aconteceu naquela sala de cinema para um Diretor de Arte como eu sair em crise com o mundo das imagens? Livro versus filme, palavra versus imagem, Saramago versus Meirelles. Ambos sabem como ninguém contar uma estória. Eu amo cinema, por que sai decepcionado? Será que José é melhor como escritor do que Fernando como cineasta?

O filme é a versão “light” do livro.

Talvez seja isso. Será que as limitações impostas por questões comerciais arruinaram a fita? O inferno que minha mente criou ao ler o texto original foi infinitamente pior ao que vi na tela. Se tivessem dado liberdade total para o Fernando o resultado seria outro? Vou mais longe: se tivessem dado a direção para um diretor mais contundente como Claudio Assis, por exemplo, eu estaria mais satisfeito?

Não quero ser mal interpretado, o filme é bom. Logo no inicio a sensação de flashes de cegueira transmitida pelos reflexos no pára-brisa do carro é sensacional. As soluções de fotografia do Cesar Charlone são muito boas. Mas não sei... faltou alguma coisa.

Uma imagem vale mais que mil palavras? Fica ai a pergunta.

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Te daria meu coração, se tivesse um.

Sobram pernas, braços, bíceps na televisão. Apolos pulam, nadam, lutam, mas não conseguem sair da caixa. É a magia do espírito olímpico, ou a maldição de Nikola Tesla.

Cem olhos se fixam na pequena tela. Brancos, negros, amarelos, todos correm. De quem correm?

Eu sei de quem corro. Sei que não vou vencer. Meus passos são gigantes, faço da Terra a Júpiter em menos de um segundo (quem já me viu olhando para o nada sabe que é verdade). Voltas e voltas na Via Láctea e minha pálida mão me esperando, sempre, no final. Sou obrigado a me olhar nos olhos, não existe revezamento. Estou condenado a um empate infinito num espelho que existe só para me devorar.

Empatar, em alguns casos, é pior que perder.

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

NOME PRÓPRIO, o filme

Na primeira cena o filme já diz a que veio. Pelo menos no quesito intensidade. Nada mais justo, vida intensa, filme intenso. E por ai sai Camila, a protagonista, que te pega pelas mãos e te leva para um mergulho vertiginoso na sua pouco convencional vida. As câmeras do Murilo Salles vão atrás e o olhar maduro do diretor intercala crueza e poesia. Não li o livro da Clarah Averbuck, então não posso estabelecer relações entre o original e a fita, mas o filme é muito bom (e tive o privilegio de dizer isso pessoalmente ao diretor). Mas vou mais longe: Nome Próprio é o retrato de uma geração: lembrei de vários jovens autores brasileiros e de seus personagens. Vieram a minha mente o desiludido Felipe (do Flávio Izhaki), a borderline Lorena e o solitário Miguel (do Santiago Nazarian). E se minha cultura fosse maior, provavelmente encontraria mais referências. O filme é sobre busca, e enquanto esperamos o resultado da epopéia podemos ver a Leandra Leal traindo, transando, vomitando. Mas também podemos ver o pôr-do-sol refletido numa pequena janela no cantinho da tela. Poesia para os olhares atentos ou nudez escancarada, você escolhe. Só não escolha não assistir Nome Próprio.

Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Anjos atônitos.

Meus sonhos têm devorado quilômetros do meu sono. Castigo ácido sobre pétalas doces, beijo lilás que não pude negar. Lábios e noites não me pertencem mais. Perdi meu dia para o invisível. Não importa quanto Chanel use, minha alma está doente e seu perfume me acompanha num denso cortejo fúnebre, sem flores, sem cores. Na rua, os vivos esquivaram o pobre mendigo da Rua São Clemente. No sinal, os anjos se abriram como o Mar Vermelho para me deixar passar.

Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Comida de porcos

Posso dizer com exatidão em qual momento da minha vida comecei a odiar a policia. Aos nove anos minha bola de futebol foi chutada para fora de campo e rolou lentamente até se deter aos pés de um PM. Meus olhos seguiam a bola e se depararam com um par de botas pretas. Levantei os olhos e dei de cara com um homem gordo e grotesco.

Ele venceu a sua grande pança, se abaixou e pegou meu brinquedo. Mas tudo bem, ele era um policial, ele era dos “mocinhos”. Então simplesmente me aproximei e pedi minha bola de volta. Ele segurou meu braço direito e apertou com força. Enquanto me machucava ele proferiu orgulhoso as seguintes palavras: “quem manda aqui sou eu, só te devolvo tua bola se eu quiser”.

O porco precisava se auto-afirmar e eu fui seu alimento. Trás empanturrar seu ego imundo devorando meu fino braço ele soltou seu troféu. A bola caiu e rolou pelo chão. Meu conceito de lei também.

Entendo perfeitamente um jovem negro que pega um Automatic Kalashnikov e estoura os miolos de um porco filho da puta.

Domingo, 6 de Julho de 2008

Dorian Gray

"Cada um de nós traz consigo a chave do inferno"